entremeado
“No tear que tece a nossa vida não há pontas soltas”

Caio

Quer ir a algum outro lugar?”.

Chegamos no apartamento dele alguns minutos depois. No carro conversamos pouco, ele sempre tentando puxar assunto e eu sem conseguir responder.
Ele era perfeito demais para mim. Eu era só um garoto, dezessete anos, mochila nas costas e um uniforme do colegial. Ele era um homem.
“Fica a vontade, quer um pedaço de bolo? Vou trocar de roupa, volto já”.
Estava sozinho na sala enquanto ele se trocava. Comecei a tremer, devagar colocava os pedaços de bolo na boca, pensando no que estava fazendo. Era melhor ir embora.
Ele voltou do quarto com uma bermuda verde e uma camiseta branca. Tentei disfarçar, mas não conseguia mais. Fiquei olhando para suas pernas.
Ele sentou-se ao meu lado, perguntou se tinha gostado do bolo. Ele também não conseguia disfarçar mais, pegou minha mão e me olhou nos olhos.
“Posso?”.

Ele perguntava se podia. Eu queria.
Ele tirou minha camiseta e me deu um beijo. Suas mãos quentes passaram pelas minhas costas. Devagar ele tirou sua roupa e nós ficamos em pé.
Nos beijamos, nos tocamos, sentindo cada um o corpo do outro.
Aquela noite foi única, assim como ele foi único em minha vida.

As ruas estavam escuras e silenciosas. Caio não disse nenhuma palavra ao me levar para casa. Eu não conseguia pensar em nada, queria apenas dormir e sonhar com o que tinha acontecido.
“A gente se fala?”.

“Claro Caio, a gente se fala”.
Subi as escadas enquanto ele desaparecia na escuridão da noite.
Lembrei-me do banho que tínhamos tomado juntos. Lembrei-me de cada segundo, do sorriso, do olhar.
Será que na outra manhã eu acordaria e me sentiria um homem?Será que alguma coisa mudaria?
Fui para o meu quarto, todos já estavam dormindo. Deitei e comecei a chorar.
Não queria chorar, mas as lágrimas vinham. O que eu tinha feito?Tinha ido longe demais?
Só sei que dormi com o rosto molhado, a alma leve, o corpo cansado e a imagem dele na cabeça. E hoje ainda penso muito nele. Não queria, mas penso. E nem posso dizer que foi amor, mas mesmo assim ele marcou, afinal foi o primeiro.
Não quero dizer palavras poéticas como se estivesse apaixonado. Não quero estar apaixonado por alguém que não vejo a tanto tempo. Pois Caio já não faz mais parte da minha vida.

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13 Respostas to “Caio”

  1. humm isso é um conto ou aconteceu com vc???

  2. E nossas lembranças conhecem calendários por acaso?
    Tudo o que faz bem ao nosso coração ou a nossa vida de alguma forma marcam como uma breve pausa no tempo.
    Me apaixono diariamente por minhas lembranças, são momentos inesquecíveis que estão ao meu alcance no fechar de minhas pálpebras…
    Lindo texto!
    Beijos.

  3. Vc escreve mto bem viu!
    🙂

  4. Mas deixou uma marca e faz parte da sua história. Isso q importa.

  5. PÔ VALEU A FORÇA!!

    vc deve ser um cara legal!

  6. Belo texto!!! Parabéns.
    Beijocas da Aspirina.

  7. Já falaram o que ue poderia dizer aqui.. mesmo assim, vale o registro: escreves muito bem. As palavras são as tuas melhores amigas. Quando isso acontece, os sentimentos montam nelas e dão voos magnificos, como nesse texto. Parabéns!

  8. alguns vão… alguns voltam…
    guess that’s just the way life is.

  9. “O importante é continuar fazendo parte da história das pessoas”
    Nem sei se é pertinente, mas eu gosto dessa frase.
    abs!

  10. Ah, quem dera pudéssemos escolher de fato por quem nos apaixonamos. Podemos nos enganar.. Mas enfim. E de certa forma, Caio faz parte da tua vida (ou o personagem em questão, desculpe-me mas não tenho certeza), para ter lembrado e comentado após tanto tempo.
    Pode ser por ter sido o primeiro, mas algumas pessoas simplesmente não saem mesmo. Ótimo texto, vou te linkar devolta.

  11. […] com o Caio”. Finalmente o filme acabou, sozinho ele foi para o ponto de ônibus. Queria esquecer Caio, queria esquecer tudo. Ligou o celular: chamada perdida. Era Caio. Daniel não sabia se ligava ou […]

  12. […] O desejo que estávamos sentindo era notado por qualquer pessoa que observasse nossos olhares. “Quer ir a algum outro lugar?”. Era a pergunta que eu esperava. Mas por maior a vontade eu não podia sair com ele. Dois meses […]

  13. […] é normal, se é certo.O que eu sentia por ela era diferente pelo que senti na noite anterior. Caio era desejo, era corpo.Carol era carinho,era alma.Amor e sexo em corpos separados. Carol era amiga […]


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